quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Bike

quer saber?
vivo como que de bicicleta
pneus, pneumotórax
pra cá e pra lá
na cidade, na estrada de chão
e, que me desculpem as autoridades,
de vez em quando na contra-mão

não ouso dizer, porém
que sou atleta
evito subir
acho difícil
só ascendo sem S
e vou descendo a vida
antes o inferno que o céu
que me chamem vagabundo!
antes o fundo do poço
que o topo do mundo

mas se me ver caminhando,
divagando devagarinho,
ciscando o grande mistério,
é que estou a descansar,
levando algo a sério,
ou só olhando o azul do mar

e se me ver zunindo
pedalando com culhões
em velocidade máxima
e preocupação mínima
não vá tirando conclusões
não sou de correria
se acelero demais
é só por um momento
e pra sentir no rosto
o toque raivoso do vento.


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A coisa

Existe uma coisa
que a ciência
ainda não entende
uma coisa estranha
fascinante
hipnotizante
nos olhos
de uma mulher triste

Alquimistas tentaram formular
Freud tentou explicar
a ditadura tentou censurar
todos fracassaram
por que essa coisa
não tem fórmula
nem explicação
e nos anos 70
algumas guerrilheiras
se juntavam num porão
choravam escondido
e discutiam marxismo

É coisa complicada demais
inexplicável como gente
que entorta colher com a mente
um mistério
coisa que não se descreve
as mulheres sabem que tem
mas não contam pra ninguém
tem a ver com as lágrimas
aquelas que insistem
em não rolar rosto abaixo
e ficam só reluzindo
tremendo
na iminência de descer
e nós, homens
a platéia eterna dessa cena
vibramos
torcemos
para que fiquem
por mais um segundo
brilhando
nos olhos

Tem gente que não entende
só quem entende
sabe que é lindo
ao mesmo tempo
que fura um buraco
no peito da gente
e deixa o ar meio triste
meio melancólico

E é coisa tão intensa
que a indústria já procura
um jeito de produzir
uma empresa europeia de cosméticos
jura que conseguiu industrializar:
"Sad eyes, by Jacques Fromage"
mas é propaganda enganosa
não se deixe levar
isso lá é coisa
pra mercado assimilar?

os que assimilam são espertos
de visão rápida
alguns se sentem puxados
como que na praia em tempestade
outros tem como inspiração
e já correm pro pincel
pra tentar trazer
o brilho pro papel
e tem uns que gostam tanto
que fazem o que for preciso
só pra fazer
uma mulher chorar
não entendo muito bem
mas quem sou eu para julgar?

como você já sabe
minha onda já é outra
e é por isso, meu bem
que eu reforço o coro
da velha canção
daquele jamaicano
de cabelo engraçado
e palavras bonitas:
no, woman, no cry
porque essa coisa
nos teus olhos
apesar de estremecer meu corpo
e me prender
por um instante interminável
a você
não vale a pena de se ver
se por fim não vier
antecedendo
um sorriso.

A morte

A morte é um momento
rápido, imperceptível
muito mais simples do que parece

a morte é um instate cru
talvez cruel
que ninguém viveu para descrever

a morte é um milissegundo abismal
que cria em seu vácuo
um antes e um depois inconciliáveis

a morte é um piscar de olhos dramático
teatral, hollywoodiano
sempre de um só ator

a morte é um ponto realmente sem dimensões
que, vai ano vem ano,
insiste em ser final

a morte é um momento
mas a vida, seja gloriosa ou miserável,
é um infinito de momentos

e o infinito
é infinitamente
maior que um.

Manifesto da poesia ignorada

minha poesia é um desastre
um acidente programado
uma explosão silenciosa
atômica, cancerígena

minha poesia é uma poça de vômito
um grito ébrio na madrugada
um cuspe desrespeitoso
no rosto pálido da harmonia

minha poesia não é bela
não quer ser bela
minha poesia quer ser real
ou tão surreal quanto carne e osso

minha poesia é uma ciência
biológica, humana e exata
pulsa no sangue, corre na cidade
e tem uma única resposta

minha poesia não é ornamental
não entrete, não diverte
é suja, incômoda, desagradável
e não recomendável para crianças

minha poesia é viva
mas morre a cada minuto
e renasce, revive, repete
e volta para te atormentar

minha poesia tenta ser humana
para correr nua por aí
é um pinóquio de madeira podre
cujo nariz nunca vai crescer

minha poesia é criminosa
vandaliza praças públicas
atenta ao pudor, agride o meio ambiente
mas é forte demais para ir presa

minha poesia não quer criar
minha poesia quer destruir
destruir a sua poesia, você e a sua família
minha poesia quer destruir a mim mesmo

mas eu evito enfrentá-la
liberto-a todos os dias, depois do café
e ela sai, xingando e amaldiçoando
o ar da manhã.

Anzol

Não quero ser
como meu pai.
de velhos
já temos os próprios
afinal,
filho de peixe peixinho é
e, mesmo depois
de milhões de anos,
os peixes continuam sendo
comida.

Poema de Arrhenius

Ó, Mar salgado,
Quanto do teu sal
é metal com ametal?

José, João e o poeta

há sempre um momento
todos os dias
silêncio de alegrias
capricho do vento

a cidade se aquieta
o mundo sossega
a ciência não nega
é a voz do poeta

o poeta canta
abre a voz no espaço
a frase em pedaço
em si mesmo transplanta

e o céu se escancara
e homens às palmas
enxergam as almas
que o tempo mascara

e tudo agora é belo
tudo agora é arte
não há mais infarte
não há mais flagelo

a vida é linda

mas no fundo de terras sem nome
onde o sol se retém
e o poeta não vem
josé e joão choram de fome

pocra, proca, procrastinação

Pode me pedir depois?
Agora eu não estou fazendo absolutamente nada.

Descendo!

Aviso aos passageiros
antes de entrar no elevador
verifique se o mesmo
encontra-se parado
na sua classe social

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Olá, retorno a este tão inacessado blog por motivos que fogem do meu conhecimento, penso eu. Muito provavelmente por causa do tédio dessa emocionante noite de 'quase feriado' aqui na terra da garoa. Por falta de coisa melhor para fazer, e devido à fadiga mental dos meus deveres estudantis, cá estou. Então foda-se.

DOS PRAZERES INALIENÁVEIS DO ALIENANTE MUNDO VIRTUAL

Método. Toda vez que ligo meu estimado computador DELL, comprado em n prestações sem juros, eu abro meu Firefox (chupa essa Bill Gates) e entro, nesta ordem, nos seguintes sites: UOL, Facebook, Whiplash, Twitter, Orkut(rede social arcaica); convenientemente localizados na minha barra de favoritos. Então, começo a ver o conteúdo das páginas de trás para frente, visando uma suposta ordem crescente de importância. O que na prática não corresponde à verdade.

Orkut. Bons e longínquos tempos de dois anos atrás remontam a minha história com essa decadente rede social. Talvez algum dia já apresentou alguma utilidade na vida de alguém, mas hoje, entar no orkut é um simples olhar no passado recente, um flashback recorrente. O prazer de ver como você queria ser visto dois anos atrás é quase um exercício de masoquismo para quem amadureceu um mínimo que seja.

Twitter. Your Tweets: 617. Following: 96. Followers: 70. Como se percebe, obviamente, não sou um sucesso do microblog. Entretando, o Twitter satisfaz um dos anseios mais gritantes do ser humano: ser ouvido. É quase um orgasmo ver a repercussão (se há alguma, é claro) de algo que você tweeta (é assim que se conjuga o verbo twitar no presente do indicativo?). Um mention, um retweet, é o auge da satisfação humana, o que indica uma carência coletiva em consultas ao psicólogo. Follow me: @mauroxavierneto

Whiplash! Afora os vários posts deveras inúteis, é o melhor site dentre os citados. Prazer instantâneo para quem acredita, assim como eu, que o sertanejo universitário deveria ser proibido por lei.

Facebook. Não faz nem um ano que migrei para essa rede social, após o naufrágio do Orkut. Apesar do pouco tempo, foi possível perceber que Mark Zuckerberg é um pequeno gênio do mal. Incrível o modo como se explora a capacidade ociosa do homem. Fácil de perder alguns muitos momentos preciosos da nossa existência. Penso que Zuckerberg concebeu o site como instrumento de dominação global. Êxtase dos prazeres virtuais. Que jogue a primeira pedra aquele que não fica feliz quando se depara com n notificações ao entrar no site. O prazer de recusar amizades todo dia, pretensiosamente (como se eu conhecesse metade dos meus 438 amigos do facebook). Em suma, trata-se de uma armadilha para aqueles que já tem vocação para o ócio. Muito provavelmente os gregos não tivessem desenvolvido a filosofia se pudessem passar horas e horas curtindo o status e/ou o comentário do seu amigo. "O que é, é" - Parmênides (Aristóteles curtiu isto). PS: se você entrou no blog pelo link divulgado no facebook a reposta é: sim, isso é hipocrisia; porém consciente e intencional.

UOL. Miscelânea de algumas notícias interessantes juntamente com os mais variados sentidos que a expressão 'cultura inútil' pode apresentar. Tenho um enorme prazer de olhar a página inteira só para concluir que não há nada que me interesse, diariamente. Entretando, o maior dos prazeres relacionados ao site é o momento em que eu verifico meus emails. Não existe compulsão mais forte do que a necessidade diária de esvaziar a caixa de entrada. É quase como uma lei natural, não existe explicação. Em menos de meio minuto eu clico em 'selecionar todas as mensagens' e depois 'apagar mensagens selecionadas'. Raramente existe algo que não para no lixo em menos de 30 segundos. E quando existe, muito provavelmente, é excluído nos proóximos 30s. Talvez Sigmund Freud diria que é meu subconsciente que alimenta essa necessidade. Mas é incrível como que, de todos esses prazeres virtuais, este é o mais imbecil e o mais imprescindível.

Um viva para os prazeres imbecis da internet, que não nos deixam mais interessantes nem mais interessados em nada que seja relevante.

Entao, foda-se.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Tarde

Risca áspero o lápis
devem ser quatro ou cinco
da tarde
o sol já se avermelha
na janela
aqueleles velhos mosquitos
cutucam meu rosto
ali na frente
na televisão
um drama familiar
atriz viciada
adolescente desaparecida
seja o que for
promoção
de suplemento alimentar
só até às cinco
juro
que eu vou ligar
e mandar todo mundo
à merda
mas de que adianta?
diante disso
disso tudo
diante do tédio puro
destilado
diante dessa mulher
de meia idade
e voz suave
comandando o circo
do melodrama
diante desses insetos
miúdos
sobrevoando a sala
a minha única arma
a minha única força
é a escrita
é escrevendo
num caderninho amarelado
que eu me vingo
da monotonia
é assim que eu me movo
rompo a inércia
das tardes ensolaradas
saio dessa sala
e vou para longe
as minhas palavras
sejam elas comuns
ordinárias
pouco poéticas
me livram
quebram alguns grilhões
a minha revolta
é silenciosa
a minha revolução
não incomoda os pardais
que cantam alí fora

e você pode
achar que é normal
que é só o tempo
que passou
e que eu exagero
e que eu vivo
num poema modernista
mas eu sei
eu sei
que foi porque eu escrevi
essas palavras
do jeito que elas quiseram
que agora
eu esqueço
o tédio
a Sônia Abraão
os mosquitos
e vejo
lá longe
no Oeste
o por-do-sol.