domingo, 3 de junho de 2012
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Brado eu triste, revoltoso.
Minha voz rouca não alcança
Nem mesmo os ares da madrugada
Silenciosa, absoluta.
Minha tese não tem argumentos,
Minha poesia não tem ornamentos,
Minha vida não tem ensinamentos,
Insana, breve, como um tormento.
Vivo hoje, mas não o agora.
Vivo o sempre que não demora.
Não vivo o viver que ontem tive.
Não choro as lágrimas secas,
Mesmo entre os que muito estive.
Minha vida é contradição,
É brava inibição
Sustentada pela multidão
Que observa calada
O protesto pobre,
A anarquia nobre
De tempos obscuros,
De olhares mudos.
Protesto contra tudo,
Sereno e resoluto.
Não tenho razão para ser,
Ao menos para viver
Entre os quais não me identifico,
Doentes pelo vício.
Vírus desejoso
De uma ambição demente,
De uma ânsia de possuir
Aquilo que se pode ter
Às custar do sofrer.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
SALA DE ESPERA
Entra na sala, a secretária logo se dirige com o bordão:
- O doutor o atenderá dentro de alguns minutos...
- Defina "alguns".
- Desculpe, não entendi.
- Quantos minutos? Não tenho tempo a perder.
- O senhor possui algum compromisso?
- Defina "compromisso".
- Perdão?...
- Está perdoada.
- O senhor tem algum lugar para ir ou alguma coisa para fazer?
- Acho que algum lugar para ir já seria alguma coisa para fazer.
- Hã?...
- Nada. A vida é curta demais para corrigirmos pleonasmos.
- Mas afinal, o senhor tem algo para fazer que não possa esperar alguns minutos?
- Bem, eu definitivamente tenho muitas coisas que pretendo fazer. E depende de quantos minutos vou ter que esperar.
- O senhor precisa ter paciência, ainda são duas horas da tarde.
- Jà são duas horas da tarde. Não me falta paciência, me falta tempo.
- Olha, eu também estou bastante ocupada...
- Por que "também"? Eu não disse que estou ocupado.
- Mas o senhor não disse que tinha muito que fazer?
- Com toda certeza.
- E isso não é estar ocupado?
- Não. Estar ocupado é a desculpa que usamos para justificar o fato de não fazermos o que não queremos fazer ou para amenizar a frustração de não fazermos o que queremos fazer.
Nesse momento uma senhora que também se encontrava na sala de espera levantou seus olhos da revista de fofoca e olhou para os dois. A secretária insistia:
- Não estou entendendo aonde o senhor quer chegar.
- Não importa onde se quer chegar, o que importa é o caminho escolhido.
- E que caminho o senhor escolheu?
- Eu não escolhi, já escolheram para mim.
- Então quem escolheu?
- Se eu soubesse essa resposta eu não estaria aqui.
- Por quê?
- Porque se, dentro da minha ignorância, isso já parece uma perda de tempo, em plena consciência seria inconcebível.
-Como uma consulta ao médico seria uma perda de tempo?
- A consulta, em seu âmago, não o é. As pequenas esperas é que me impedem de aproveitar meu tempo de modo mais eficiente.
-Senhor, todos os pacientes têm que esperar um pouco, só você está reclamando.
- É por falta de reclamar que a maioria das pessoas não sai da sala de espera, passam suas vidas inteiras nela.
A senhora que estava prestando atenção na conversa passou de um olhar fixo para um olhar vago e pensativo depois de ouvir essa última fala. A secretária, perplexa, continuou:
- O que você quis dizer com isso?
- Não quis dizer nada além do que disse.
- Mas então o que você disse?
- Você não ouviu?
- Ouvi, mas não entendi.
- Não se preocupe. A maioria das pessoas também ouve, mas nunca entende o que a vida tem a dizer.
- E desde quando você sabe o que a vida tem a dizer?
- Desde quando eu descobri que não sabia.
- E como você pode saber e não saber ao mesmo tempo?
- Reconhecer a ignorância é uma forma de obter conhecimento.
- E por que você resolveu discutir isso comigo?
- Não estou discutindo, apenas estou respondendo suas perguntas.
- Eu não me lembro de ter perguntado nada disso.
- Pergunta e resposta devem, por definição, ter conteúdos diferentes, muito embora tratem de um mesmo assunto. Responder a contendo de quem pergunta não acrescenta nenhuma informação nova.
- Eu não pedi por nova informação.
- Isso é normal. A maioria das pessoas pergunta esperando respostas conhecidas, ao invés de procurarem o que desconhecem, o que lhes é estranho.
- Então você é parte dessa minoria "privilegiada", não é?
- Não é questão de privilégio. É questão de aceitação.
- Aceitar o quê?
- Aceitar que o que você sabe determina quem você é. Tudo o que percebe e extrai da vida muda um pouco sua essência como ser e o diferencia da massa.
- Mas ninguém gosta de ser diferente.
- Ser diferente não é confortável, por isso que as pessoas recusam o que é estranho, ao invés de aceitá-lo.
- E qual a minha relação com isso? Eu sou só uma secretária...
- Você, como toda sociedade, identifica-se pela função social, sua profissão. Desse modo, não se permite ressaltar suas particularidades, suas diferenças que fazem reconhece-la como indivíduo, e não como mera parte de uma sociedade massificada, que rouba diariamente sua identidade. Afinal, quem é você?
A secretária ficou muda, pois, de repente, percebeu que não conhecia a si mesmo. Pela primeira vez foi obrigada a olhar para dentro e conversar consigo mesma, e teve uma longa discussão com sua consciência. A pergunta feita ecoava em sua mente, cada vez mais alta, até que chegou a um volume ensurdecedor... Para ela foram como horas de longas argumentações, mas na realidade não passaram de alguns segundos. Então, finalmente conseguiu abrir a boca e expirar a quantidade de ar necessária para produzir algum som:
- Eu...
Entra na sala o médico, apressado, e se dirige para ele:
- Desculpe a demora, o trânsito estava horrível. Vamos começar logo sua quimioterapia, tenho compromisso mais tarde.
Ele fez um sinal positivo com a cabeça e entrou em outra sala, sem proferir mais nenhuma palavra, acompanhado pelo médico. A secretária continuou na mesma posição em que estava quando ia começar a falar, mas agora seu olhar não conseguia focar nada, parecia que olhava para o vácuo entre os átomos do ar. A senhora, que acompanhou toda a cena, parou seus olhos na secretária. Não conseguiu explicar para si mesma o que sentia naquele momento. Olhou para o seu colo e percebeu que a revista de fofocas ainda estava em suas mãos. Livrou-se dela com um gesto de desprezo e caminhou para a saída. Antes de abrir a porta ela virou para a secretária, que ainda estava aérea, e disse:
- Desmarque minha consulta, por favor.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
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