sábado, 10 de abril de 2010

Textículo # 1: Maldito Sol

Quando eu acordei hoje, levei um soco na cara.
Do Sol.
O grande astro rei decidiu enviar sua influência exatamente pelo vidro da janela do meu quarto, me acordando em grande estilo. Foi um daqueles momentos mágicos nos quais você amaldiçoa tudo que existe, mas se concentrando em algumas coisas, é claro.

Sempre que você bebe, entra em uma realidade um pouco mais descontraída. Esquece alguns dos fugazes problemas que a vida jovem em uma cidade pequena pode propiciar. As pessoas ficam mais interessantes, mais atraentes. As conversas ficam mais filosóficas e divertidas. Alguns pudores são deixados de lado.

Mas vivemos em um mundo terrível, então nada poderia ser tão bom sem que algo fosse pego em troca. O dia seguinte é esse algo.
Quando a noite chega ao fim, lá vem ele, maléficamente, com toda aquela luz, pegar tudo de volta.
Maldito Sol.

Além de pegar o que é bom, ele ainda devolve os pudores, acrescenta arrependimentos e, não contente com tamanha crueldade, te dá de bandeja uma dor de cabeça que te tortura e te esfarela a cada pensamento, a cada movimento que seus olhos captam.
Maldito Sol.

Aí eu me pergunto, e se não for o Sol? E se for a bebida em si que pega tudo de volta no dia seguinte? E se for tudo culpa dela?

Então deveríamos simplesmente parar de beber para evitar tão maquiavélica reação. Parar de beber e nunca mais sentir a tontura, a náusea, a dor. Parar de beber e poupar nosso corpo desse veneno formidável que já vitimou artistas, executivos e vagabundos através da história, sem preconceitos, sem escolhas, sem injustiças. Parar de beber e se livrar dessa estímulo a uma loucura infundada, que transforma o errado em certo, a desilusão em crença, o luto em riso. Parar de enfiar garganta abaixo essa morfina em miniatura que deixa tudo mais interessante. Parar de beber...

Não. Maldito Sol.