Tomei um chá
de realidade
e nunca mais voltei
alucinações em carne e osso
torres de marfim dinamitadas:
nitroglicerina filosófica
prédios, postes, porcos
"homens livres"
(entre as maiores aspas do universo)
vivem, morrem
e o Sol
radioativo
ultravioleta
ultraviolento
impera
frita-nos
queima-nos
derrete-nos
enquanto nos gladiamos
fugimos de feras
somos crucificados
e os romanos?
os romanos somos nós
a César o que é de silva
ao vencedor as atas
que faça o favor de preenchê-las
e repassá-las ao coordenador
e aos supervisor
e ao diretor
quero tudo pronto em 500 anos!
mas antes trate de homologar
a minha carta de alforria
depois me envie por e-mail...
no anexo, algumas fotos suas
dançando
bebendo
transando com o seu namorado
protejam a propriedade privada
destruam a privacidade própria
afinal, está tudo aberto
abrigos nucleares desativados
para sobreviver à hecatombe
basta um equipamento de mergulho:
Mundo-Atlantis
aliás
alguém já fez um filme sobre Atlantis?
sim?
então façamos uma versão 3D
abram seus baús de clichês
temos milhões para ganhar
adolescentes para eriçar
e um way of life para exportar
só tome cuidado, querida,
quando for entrar nesse mar azul
lindo, da cor do céu
para não se sujar de esgoto
e petróleo
e chumbo
coloque uma carta numa garrafa
e jogue no Atlântico
talvez alguém encontre na África
e use de almoço
uma boa caridade, não acha?
veja se dá pra descontar no imposto de renda
o Leão é de lá mesmo!
mas agora abaixe-se
mais uma bala passou
pedindo informação
é assim aqui
e na cidade maravilhosa
e no Oriente Próximo
culpa do povo
nasce pra ser bandido
quem nunca viu
recém-nascido esfaqueando a mãe?
é o mau selvagem
o lobo de si mesmo
mas isso tem cura:
Deus, o piedoso
ao contrário do que diz a história
ao contrário do que diz a Bíblia
eu quero a minha Gomorra
I want my MTV
beba Coca-Cola
em nome do pai
do filho
do espírito santo
amém
e a mãe?
que vá lavar minhas roupas
tenho reunião às seis
está calor demais para usar terno?
não importa
eu vivo num domo resfriado
onde tudo é gravata
e uísque
e dinheiro
e secretárias convenientemente siliconadas
mas eu...
eu quero uma casa no campo
pra guardar meus discos, meus livros
os amigos do peito
e plantar cana-de-açúcar
ou soja
ou eucalipto
mas aí vou precisar de uns escravos negros
pra trabalhar na lavoura
você pode me arranjar alguns?
o que? não pode mais?
certo, então me traga uns nordestinos
que não muda muita coisa
índios também!
desde que catequizados
e treinados para tocar, no violino,
aquela velha sinfonia
a marcha fúnebre
infernal
bela composição
em decomposição
notas apodrecidas
que nos indicam o túmulo
a cova
o buraco no chão
a parte que te cabe deste latifúndio
a verdadeira posse:
a morte
mas isso tudo não passa
de um delírio
delírio frio
mórbido, sangrento
a bad-trip
da pior de todas as drogas
que vicia ao primeiro toque
que mata mais do que o crack
(segundo levantamento da OMS)
que causa a pior loucura
a loucura física, cadavérica
de todos os seres
que perambulam sob o Sol
essa droga
é a realidade
a mais pura
realidade
que consome o vivo
e desrespeita o morto
a realidade
que se forma
que toma forma
em um enorme animal voador
de asas magras
esqueléticas
e olhos negros
que nos olham de cima
como presas
como comida
e com sua sombra
não nos permite esquecer
não nos permite fugir
só tomar
a dose diária
antes do almoço
mas se você, meu bem,
quiser fazer como eu fiz
misture a realidade com água
e ferva a 100°C
mas tome só uma xícara:
a overdose é fatal
gatos sorridentes?
coelhos apressados?
o que você verá
será crianças famintas
cultos ao ódio
mísseis em casas
de civis
Corpus injuris civilis
e a liberdade?
um fantasma
independência ou morte?
a escolha já foi feita
tudo nesse mundo morre
E talvez, querida
você pegue sua caderneta
e de novo faça como eu
e vomite
no papel
tudo que você viu
em forma de versos perdidos
mas trate de tentar
fazer melhor do que eu
já que minhas ideias
são desconexas
desconectadas
e minha cabeça dói
na ressaca infinita
dos que veem
o real
E enquanto eu volto
da minha viagem metafísica
sob efeito
do mais poderoso
psicoinativo
já posso respirar
esse filme confuso
a que eu fui obrigado a assistir
já se aproxima do internavalo
e o cinema fornece o coffee-break:
comida diet
fast food
mas não se esqueça de ler
as informações nutricionais
quanto mais rápido o diagnóstico
maiores chances de sobreviver
ao câncer
é isso.
agora, meu bem
deite-se ao meu lado
em volta de nós
colocarei arame farpado
ou uma cerca elétrica
ou logo um muro de três metros
para que possamos sossegar
por 5 minutos
e olhar as estrelas
que elas estão longe
ainda não estão nuas
ainda carregam o mistério
ainda brilham
por isso
me beije os lábios
e olhemos
só por 5 minutos
as estrelas
que o dia logo vai amanhecer.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
quinta-feira, 7 de julho de 2011
All you need is hate
O amor é lindo
mas sonhador demais
até teórico demais
daquela canção dos fab four
ninguém lembra mais
o ódio, por sua vez,
chega a ser
mais plausível
é claro que pode ser
odiável
e isso a lógica não nega
mas o ódio também pode ser
amável
como é um certo ódio
espontâneo, puro
livre de vaidades
o ódio que cresce entre os pobres
que cresce entre os miseráveis
ódio que brota em mãos calejadas
em dentes podres
em casas que não são suas
ou que não são nem casas
ódio contra motores, engrenagens
contra cofres e homens fardados
contra velhos cheios de uísque
e belas mulheres em praias cercadas
ódio que se alia à fome
à dor, ao abandono
ódio que vê ao longe a esperança
como o sol se abrindo depois de torrentes
ódio paciente
que já esperou milênios
e que, apesar de parecer esgotado, controlado
ainda vai se libertar
o ódio contra o agora
que ferve no sangue
que sussura nos ouvidos
chamando à luta
ódio brutal
que, uma vez livre,
vai destruir
para reconstruir
o ódio do povo
é lindo
e é a esse ódio
que eu proponho um brinde
Mas cuidado, companheiros
para não quebrarmos os copos.
Assinar:
Comentários (Atom)