O amor é lindo
mas sonhador demais
até teórico demais
daquela canção dos fab four
ninguém lembra mais
o ódio, por sua vez,
chega a ser
mais plausível
é claro que pode ser
odiável
e isso a lógica não nega
mas o ódio também pode ser
amável
como é um certo ódio
espontâneo, puro
livre de vaidades
o ódio que cresce entre os pobres
que cresce entre os miseráveis
ódio que brota em mãos calejadas
em dentes podres
em casas que não são suas
ou que não são nem casas
ódio contra motores, engrenagens
contra cofres e homens fardados
contra velhos cheios de uísque
e belas mulheres em praias cercadas
ódio que se alia à fome
à dor, ao abandono
ódio que vê ao longe a esperança
como o sol se abrindo depois de torrentes
ódio paciente
que já esperou milênios
e que, apesar de parecer esgotado, controlado
ainda vai se libertar
o ódio contra o agora
que ferve no sangue
que sussura nos ouvidos
chamando à luta
ódio brutal
que, uma vez livre,
vai destruir
para reconstruir
o ódio do povo
é lindo
e é a esse ódio
que eu proponho um brinde
Mas cuidado, companheiros
para não quebrarmos os copos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário