sábado, 10 de julho de 2010

Textículo # 2: A Resposta

Abri os olhos, encarei o teto do quarto escuro. Os raios de sol passavam sem força pela veneziana. Levantei os pés da cama e os coloquei no chão. Depois de toda a reflexão que esse movimento envolve, levantei por fim o corpo todo. Abri a janela, "Que porra de dia lindo, merda", pensei. Me vesti, fui até o banheiro. Olhei pro espelho e percebi com qual ressaca eu estava. Olhei pra privada e corri até ela pra vomitar. Terminei, lavei o rosto, fui até a cozinha.

Tentei tomar café, mas desisti na metade de xícara. Voltei pro banheiro, vomitei de novo. Senti o estômago um pouco melhor, mas a velha dor de cabeça se aproximava. Coloquei um par de tênis velhos e saí, depois de trancar a casa.

Meu objetivo naquela saída era um pouco vago. Eu não tinha exatamente para onde ir, só estava repetindo um ritual que eu tinha me acostumado a fazer nos dias de ressaca. Era o estranho hábito de sair procurando respostas. Pode parecer clichê, mas para um cara na minha idade a vida de resume pura e exclusivamente na busca por respostas. E eu sentia minha mente mais aberta a essas respostas quando eu acordava vomitando minhas tripas fora.

O sol quente fazia minha cabeça rufar. Não era nada agradável, devo dizer. Andei um pouco por uma avenida, até que alcancei duas velhas que estavam indo na mesma direção que eu. Elas conversavam sobre alguma maldita experiência amorosa, algum maldito cara que tinha colocado uma porra de um chifre em uma delas. "Homem não presta", disse uma. Elas deviam ter uns 50 anos cada, e ainda mantinham discurso que quase todas as mulheres que eu conheci na vida repetiam. Senti vontade de vomitar, mas segurei. Ultrapassei as duas e segui reto, até virar em uma esquina.

A rua que eu entrei era muito bem cuidada. Era cheia de casas boas, provavelmente de empresários, advogados, todos esses tipos de ratos de esgoto que ficam por cima nas cidades imundas. Eles transformam essas cidades em seus grandes esgotos a céu aberto, cavando o lixo e cagando nas calçadas. E nós, nós somos vermes. Condenadas a cavar, caçar, sugar tudo que podemos dos corpos podres dos ratos em decomposição. É o nosso papel. Sempre foi, sempre será. Agora meu estômago começava a dar golpes, e eu sentia que não ia segurar. Procurei um canto meio escondido e senti os golpes garganta acima, soltando o líquido ácido, mortal. Sentia cada pedaço do meu corpo estremecer, em um espasmo desesperado. Enxuguei o suor frio do rosto com minha própria camiseta e saí daquele lugar.

Chegando na esquina que me levaria de volta pra avenida, ouvi uma buzina bem no meu ouvido. Virei rápido, e logo vi o que estava acontecendo. Um carro freava a uns dois metros de mim.
- Hei, seu filho da puta, não fica andando no meio da rua! - era um cara magro, de uns 25 anos. O carro não era dos mais caros. Aliás, era algum modelo da década de 80. A pintura estava por um fio.
- Porra, foi mal cara. - tentei tranquilizar a situação.
- Foi mal o caralho, vai pra puta que te pariu seu moleque otário.
Deixei o cara xingando ali e fui até a calçada. Ele olhou pra mim por uns 30 segundos e pisou no acelerador.

Era um filho da puta de um jovem. Agindo como um velho podre e ranzinza. E não era um ratinho pelado indo em direção à maturidade como ratazana poderosa. Era até meio pobre. Dava pra ver pelas roupas e pelo carro.

Senti que tudo que eu tinha pensado até ali não fazia o menor sentido. Então eu finalmente enxerguei a respostapela qual eu tinha tanto procurado. Ela apareceu pra mim ali no ar, em letras garrafais que pairavam diante dos meus olhos: "NÃO HÁ RESPOSTA".

Bom, eu já sabia qual era a Grande Resposta. Agora eu só precisava da Grande Pergunta. Tomei o rumo de casa, aquilo ficava pra próxima.