quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Manifesto da poesia ignorada

minha poesia é um desastre
um acidente programado
uma explosão silenciosa
atômica, cancerígena

minha poesia é uma poça de vômito
um grito ébrio na madrugada
um cuspe desrespeitoso
no rosto pálido da harmonia

minha poesia não é bela
não quer ser bela
minha poesia quer ser real
ou tão surreal quanto carne e osso

minha poesia é uma ciência
biológica, humana e exata
pulsa no sangue, corre na cidade
e tem uma única resposta

minha poesia não é ornamental
não entrete, não diverte
é suja, incômoda, desagradável
e não recomendável para crianças

minha poesia é viva
mas morre a cada minuto
e renasce, revive, repete
e volta para te atormentar

minha poesia tenta ser humana
para correr nua por aí
é um pinóquio de madeira podre
cujo nariz nunca vai crescer

minha poesia é criminosa
vandaliza praças públicas
atenta ao pudor, agride o meio ambiente
mas é forte demais para ir presa

minha poesia não quer criar
minha poesia quer destruir
destruir a sua poesia, você e a sua família
minha poesia quer destruir a mim mesmo

mas eu evito enfrentá-la
liberto-a todos os dias, depois do café
e ela sai, xingando e amaldiçoando
o ar da manhã.

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