segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Tarde

Risca áspero o lápis
devem ser quatro ou cinco
da tarde
o sol já se avermelha
na janela
aqueleles velhos mosquitos
cutucam meu rosto
ali na frente
na televisão
um drama familiar
atriz viciada
adolescente desaparecida
seja o que for
promoção
de suplemento alimentar
só até às cinco
juro
que eu vou ligar
e mandar todo mundo
à merda
mas de que adianta?
diante disso
disso tudo
diante do tédio puro
destilado
diante dessa mulher
de meia idade
e voz suave
comandando o circo
do melodrama
diante desses insetos
miúdos
sobrevoando a sala
a minha única arma
a minha única força
é a escrita
é escrevendo
num caderninho amarelado
que eu me vingo
da monotonia
é assim que eu me movo
rompo a inércia
das tardes ensolaradas
saio dessa sala
e vou para longe
as minhas palavras
sejam elas comuns
ordinárias
pouco poéticas
me livram
quebram alguns grilhões
a minha revolta
é silenciosa
a minha revolução
não incomoda os pardais
que cantam alí fora

e você pode
achar que é normal
que é só o tempo
que passou
e que eu exagero
e que eu vivo
num poema modernista
mas eu sei
eu sei
que foi porque eu escrevi
essas palavras
do jeito que elas quiseram
que agora
eu esqueço
o tédio
a Sônia Abraão
os mosquitos
e vejo
lá longe
no Oeste
o por-do-sol.

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