quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

SALA DE ESPERA

Entra na sala, a secretária logo se dirige com o bordão:

- O doutor o atenderá dentro de alguns minutos...

- Defina "alguns".

- Desculpe, não entendi.

- Quantos minutos? Não tenho tempo a perder.

- O senhor possui algum compromisso?

- Defina "compromisso".

- Perdão?...

- Está perdoada.

- O senhor tem algum lugar para ir ou alguma coisa para fazer?

- Acho que algum lugar para ir já seria alguma coisa para fazer.

- Hã?...

- Nada. A vida é curta demais para corrigirmos pleonasmos.

- Mas afinal, o senhor tem algo para fazer que não possa esperar alguns minutos?

- Bem, eu definitivamente tenho muitas coisas que pretendo fazer. E depende de quantos minutos vou ter que esperar.

- O senhor precisa ter paciência, ainda são duas horas da tarde.

- são duas horas da tarde. Não me falta paciência, me falta tempo.

- Olha, eu também estou bastante ocupada...

- Por que "também"? Eu não disse que estou ocupado.

- Mas o senhor não disse que tinha muito que fazer?

- Com toda certeza.

- E isso não é estar ocupado?

- Não. Estar ocupado é a desculpa que usamos para justificar o fato de não fazermos o que não queremos fazer ou para amenizar a frustração de não fazermos o que queremos fazer.

Nesse momento uma senhora que também se encontrava na sala de espera levantou seus olhos da revista de fofoca e olhou para os dois. A secretária insistia:

- Não estou entendendo aonde o senhor quer chegar.

- Não importa onde se quer chegar, o que importa é o caminho escolhido.

- E que caminho o senhor escolheu?

- Eu não escolhi, já escolheram para mim.

- Então quem escolheu?

- Se eu soubesse essa resposta eu não estaria aqui.

- Por quê?

- Porque se, dentro da minha ignorância, isso já parece uma perda de tempo, em plena consciência seria inconcebível.

-Como uma consulta ao médico seria uma perda de tempo?

- A consulta, em seu âmago, não o é. As pequenas esperas é que me impedem de aproveitar meu tempo de modo mais eficiente.

-Senhor, todos os pacientes têm que esperar um pouco, só você está reclamando.

- É por falta de reclamar que a maioria das pessoas não sai da sala de espera, passam suas vidas inteiras nela.

A senhora que estava prestando atenção na conversa passou de um olhar fixo para um olhar vago e pensativo depois de ouvir essa última fala. A secretária, perplexa, continuou:

- O que você quis dizer com isso?

- Não quis dizer nada além do que disse.

- Mas então o que você disse?

- Você não ouviu?

- Ouvi, mas não entendi.

- Não se preocupe. A maioria das pessoas também ouve, mas nunca entende o que a vida tem a dizer.

- E desde quando você sabe o que a vida tem a dizer?

- Desde quando eu descobri que não sabia.

- E como você pode saber e não saber ao mesmo tempo?

- Reconhecer a ignorância é uma forma de obter conhecimento.

- E por que você resolveu discutir isso comigo?

- Não estou discutindo, apenas estou respondendo suas perguntas.

- Eu não me lembro de ter perguntado nada disso.

- Pergunta e resposta devem, por definição, ter conteúdos diferentes, muito embora tratem de um mesmo assunto. Responder a contendo de quem pergunta não acrescenta nenhuma informação nova.

- Eu não pedi por nova informação.

- Isso é normal. A maioria das pessoas pergunta esperando respostas conhecidas, ao invés de procurarem o que desconhecem, o que lhes é estranho.

- Então você é parte dessa minoria "privilegiada", não é?

- Não é questão de privilégio. É questão de aceitação.

- Aceitar o quê?

- Aceitar que o que você sabe determina quem você é. Tudo o que percebe e extrai da vida muda um pouco sua essência como ser e o diferencia da massa.

- Mas ninguém gosta de ser diferente.

- Ser diferente não é confortável, por isso que as pessoas recusam o que é estranho, ao invés de aceitá-lo.

- E qual a minha relação com isso? Eu sou só uma secretária...

- Você, como toda sociedade, identifica-se pela função social, sua profissão. Desse modo, não se permite ressaltar suas particularidades, suas diferenças que fazem reconhece-la como indivíduo, e não como mera parte de uma sociedade massificada, que rouba diariamente sua identidade. Afinal, quem é você?

A secretária ficou muda, pois, de repente, percebeu que não conhecia a si mesmo. Pela primeira vez foi obrigada a olhar para dentro e conversar consigo mesma, e teve uma longa discussão com sua consciência. A pergunta feita ecoava em sua mente, cada vez mais alta, até que chegou a um volume ensurdecedor... Para ela foram como horas de longas argumentações, mas na realidade não passaram de alguns segundos. Então, finalmente conseguiu abrir a boca e expirar a quantidade de ar necessária para produzir algum som:

- Eu...

Entra na sala o médico, apressado, e se dirige para ele:

- Desculpe a demora, o trânsito estava horrível. Vamos começar logo sua quimioterapia, tenho compromisso mais tarde.

Ele fez um sinal positivo com a cabeça e entrou em outra sala, sem proferir mais nenhuma palavra, acompanhado pelo médico. A secretária continuou na mesma posição em que estava quando ia começar a falar, mas agora seu olhar não conseguia focar nada, parecia que olhava para o vácuo entre os átomos do ar. A senhora, que acompanhou toda a cena, parou seus olhos na secretária. Não conseguiu explicar para si mesma o que sentia naquele momento. Olhou para o seu colo e percebeu que a revista de fofocas ainda estava em suas mãos. Livrou-se dela com um gesto de desprezo e caminhou para a saída. Antes de abrir a porta ela virou para a secretária, que ainda estava aérea, e disse:

- Desmarque minha consulta, por favor.

Naquele momento, percebeu que não suportaria mais ficar na sala de espera.

4 comentários:

  1. mxneto, ao contrário do que você esperava eu não dormi nos primeiros 5 min e sim fiquei muito curiosa em saber o final da crônica.Parabéns pela escrita! E continue postando novas crônicas durante suas insônias.

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    1. Ciotta? Não, não deve ser a Ciotta, vc me chamou de 'mxneto'. Acho que vc é a primeira leitora do blog que eu não conheço x]. Sucesso total esse blog! hauhauhaua
      Mas eu gosto dele assim xD
      Muito obrigado!

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  2. PS: essa crônica eu realmente comecei a digitar em uma sala de espera do médico, no meu celular.

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  3. Não sou eu não! hahahaha

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