sábado, 25 de fevereiro de 2012

BEL- / TRIST-

Bela tristeza, triste beleza.
Fábula desaventurada,
Aventura desenganada,
Engano mal intencionado.
Intenção de permanecer
Em estado elevado,
Torre entre nuvens,
Indiferentes às ferrugens,
Indolentes aos cuidados
Da alma que sofre.
Sofrimento bem vindo,
Posto que torna bela
A face esculpida pelo tempo,
Torna carente o corpo casto,
Transfigura palidez
Mesmo no rosto mulato.
Maquiagem dos infelizes
É a lágrima escondida,
Segura, inibida,
Prestes a desabar,
Mas presa pelo pudor,
Travada pela vergonha,
Enjaulada na concha
Formada pelo calcário da dor,
Sedimentado em longos anos
De sofrimento recluso.
Impenetrável claustro
Construído para proteger
Da sociedade que ameaça,
Que julga, que sentencia.
Dor escondida no subconsciente
Que por vezes atravessa,
Ameaça a consciência
Na iminência de uma recaída,
De uma lágrima caída,
Mas que é logo enxugada
Antes mesmo de nascer,
Por não comportar o belo rosto
A ferida exposta,
Mas sim a aparência serena.
Triste sim, mas contida,
Por ser a tristeza uma senhora,
Por ter a beleza de uma jovem.
Não desesperada, posto que é dama.
Não revelada, posto que é vergonha.
Não curada, posto que é câncer.

2 comentários:

  1. De longe em longe, cabe-nos a sorte de topar com uma pessoa assim, que gosta de nós não apesar dos nossos defeitos mas com eles, num amor simultaneamente desapiedado e fraternal, pureza de cristal de rocha, aurora de maio, vermelho de Velázquez. Olhe, você nem calcula quanto lhe agradeço você existir.

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