-Você acha que esse merda sabe roubar alguma coisa? Isso aí vive de esmola de madame.
Foi a última coisa que ouviu, antes de sentir um soco no estômago e perceber que os agressores estavam caindo na gargalhada. Depois disso, algumas lembranças desconexas. Tinha acordado na sarjeta, o dia amanhecendo na cidade. O corpo todo doía, hematomas espalhados pela pele. Bando de covarde filho da puta. Juntaram quatro pra me derrubar. Ou cinco, seis. É, foram seis.
Vida dura. Fugiu de casa com oito anos, se é que dá pra chamar aquele buraco nojento de casa. Desde então, só pedia esmola. Nunca soube fazer mais nada. Tentou assaltar, mas dançou. Havia experimentado tudo: cola, maconha, crack, muito mais. Gostava de maconha, mas quando comprava ficava sem grana pra comer, e qualquer um sabe como maconha dá fome. Apanhou da polícia algumas vezes. Seu nome era Jorbson, aliás.
Enquanto o Sol aparecia atrás dos prédios, entendeu o que havia acontecido. Os desgraçados da turma do Xurumela haviam ficado putos ao vê-lo pedindo esmola, porque achavam que isso era coisa de viado. Na hora, ficou completamente de saco cheio da vida. Iria começar a roubar, era o melhor a se fazer. Levantou, aguentando a dor e o cansaço, para ir atrás de algum bairro residencial.
Encontrou uma casa fácil e, antes da hesitação assumir o controle, pulou o muro. No quintal, percebeu como tinha sido estúpido. Deveria ter monitorado a casa antes de entrar. Mas a sua fúria era tanta que achou que tinha que fazer. Não iria mais viver de moedinha alheia. Olhou pela janela, procurando alguém. Deu a volta pela casa por fora. Convicto de que estaria sozinho, quebrou o vidro com uma pedra e entrou.
Lá dentro, procurou coisas de valor. Conseguiu pegar uma caixa de papelão, com a figura de um aparelho de dvd impresso na borda, antes de ouvir barulhos. Por onde tinha entrado, pulou com a caixa e correu pela rua do fundo, ouvindo o grito de uma mulher atrás de si. Ela poderia ter visto seu rosto se não houvesse sido tão rápido.
Sentiu-se como nunca. Tinha conseguido roubar e, enquanto corria, teve a certeza de que nunca o pegariam. Aquela convicção simplesmente pipocou no seu pensamento, eliminando qualquer pessimismo. Parou em um lugar seguro e abriu a caixa. A decepção o tomou em instantes. A caixa estava cheia de livros. Livros! LIVROS! Como podia ser tão idiota? Aqueles filhos da puta tinham razão, era um perdedor, um legítimo merda. O que ia fazer com livros? Sentou na calçada e começou a folheá-los, na esperança desesperada de encontrar dinheiro escondido neles.
Nada de dinheiro. Começou a observar os nomes. Sabia ler, e isso era raro no meio em que vivia. Vinha de uma família pobre, mas tinha ido à escola até o meio da terceira série. Isso era motivo de orgulho para Jorbson, mas ele dificilmente tinha a oportunidade de ler algo diferente de folhetos e anúncios. Não era muito bom, mas conseguia recitar os títulos lentamente, liberando uma voz grave e jovem no ar da manhã.
“Guerra e paz”, “Memorial de Aires”, “Por quem os sinos dobram”. Lia lentamente, tentando se distrair da própria raiva. Nunca, em seus 17 anos de existência, sentira tanta raiva. Até que achou um livro de capa dura, antiga, esverdeada, com o título em dourado: “ENCICLOPÉDIA EM LÍNGUA PORTUGUESA”. Havia uns dez daquele tipo, cada um com uma letra diferente na capa, logo abaixo do título que se repetia em todos. Interessou-se por um com a letra J, a letra que iniciava seu nome. Começou a folhear.
Leu páginas aleatórias por alguns minutos. Então teve uma ideia. Se falasse de coisas interessantes no sinal, impressionaria as pessoas nos carros, que são estúpidas o suficiente pra achar aquilo a coisa mais bonita do mundo. Um pedinte intelectual. Ganharia uma boa grana.
Considerou aquele o momento em que sua vida mudava. Era esperto, havia pensado em algo que nenhum moleque de rua jamais sonhara. Apesar disso não tomar forma organizada em sua mente, conhecia bem a tendência dos ricos de valorizar o conhecimento, mesmo que de forma superficial: sempre soube de doações, de grandes bacanas da cidade, para centros comunitários educativos dos quais ele não queria nem passar perto. Sentia uma aversão brutal aos homens de relógios dourados e às madames em carros importados. Para sua alma traiçoeira lapidada pela dureza das ruas, seria um prazer enorme enganar todos eles. Crescia em Jorbson uma felicidade doentia, e ele tinha certeza de que estava prestes a vencer.
Chegou ao seu semáforo preferido e começou: "Jorge Amado foi um dos maiores escritores da literatura brasileira, sendo membro fundamental do movimento modernista regionalista do século XX”. “A jaguatirica é um felino de médio porte habitante da mata atlântica brasileira”. “O judaísmo é uma religião monoteísta oriunda do Oriente Médio”. “Jimi Hendrix foi um guitarrista norte-americano conhecido por revolucionar o uso do instrumento”.
E deu certo. Ficaram todos impressionados, aqueles ricos esnobes, achando que ele era inteligente e vendo aquilo como algo louvável. Ganhou esmola como nunca, comprou um baseado e fumou numa praça escura, no fim do dia, satisfeito com o momento. Vida boa! Depois comeu numa padaria - cujo dono, um português gordo e careca, nunca o deu nem uma migalha - e dormiu num beco onde sempre dormia, preparando-se para o novo dia que viria com muito dinheiro e felicidade. Sonhou que dava entrevista para um repórter, comovia a nação com sua história e era contratado para um emprego em que trabalhava pouco e ganhava muito. Depois se viu andando num carro importado, com um relógio de ouro no pulso, recusando esmola para o Xurumela, que implorava pela sua ajuda. Acordou sorrindo. É hoje.
Jorbson estava certo quando viu que sua vida mudaria naquele ponto. Ele só não previu como.
No dia que veio, encontrou no farol uma professora chamada Clara, que o convidou para almoçar em sua casa. Ela era muito simpática e disse muitas coisas a Jorbson. Ele aproveitou o almoço e simpatizou com a mulher, que já devia ter uns 40 anos. Ela disse que ele poderia ter uma vida melhor. Ele queria ter uma vida melhor, então ouviu. Acabou ficando na casa dela por um tempo - pela comida grátis - e acabou gostando. Ouvia Clara falar em estudar, e que essa era uma forma de vida digna. Aos poucos, mudou suas ideias, amansou sua fúria interna e acabou adotado pela professora.
Começou a frequentar o supletivo e, em 3 anos, já tinha seu diploma do ensino médio. Então ela o estimulou a fazer faculdade. Passou em pedagogia e terminou o curso sem muitas dificuldades. Hoje é professor e chama Clara de mãe. Está noivo de uma garota que conheceu na faculdade. Pretende se casar ano que vem e sair da casa de Clara, mas continuar ajudando-a com as despesas até que ela se aposente. Apareceu na televisão, como exemplo de superação, e já foi contatado por uma produtora cinematográfica. Sempre conta sua história aos alunos, e até hoje tem guardado, numa gaveta fácil na sala de casa, o volume verde em capa dura, com um grande J marcado em dourado.*
Fim.
* Não aconteceu nada disso. Logo no segundo dia o truque da enciclopédia parou de funcionar. Ele estava com fome e não tinha dinheiro. Decidiu roubar de novo. Desta vez acabou preso. Tinha só tentado roubar uma casa vazia, mas foi condenado por latrocínio. Acabou no Carandiru. Apanhou, foi abusado. Começou a se prostituir pra sobreviver ali dentro. Hoje é conhecido como a putinha de melhor custo benefício do prisão: não é muito feminino, mas faz serviço completo por dois cigarros. Todo mundo ouve falar naquela bundinha, com o J tatuado na nádega esquerda.
A realidade requer coragem, João. Parabéns!
ResponderExcluir